sábado, 22 de julho de 2017

sem título

quando ouço as conversas
já quase ninguém lembra o teu nome
e eu penso

isso não faz sentido

porque como pode alguém esquecer
o nome da única flor que sobrevive ao inverno

nem a extinção da humanidade
nem uma nuvem que envolva o globo
ou a acidificação dos oceanos todos
pode tornar sequer compreensível
que se suma o teu nome de todas as palavras.

terça-feira, 18 de julho de 2017

relógio

todos os dias uma lua cheia
todos os dias cento e doze marés
vinte e oito pores-do-sol
cinquenta e seis voltas do ponteiro das horas

dois milhões de batimentos cardíacos
e todas as lagartas do mundo a sair do casulo de asas abertas porque as células imaginais ganharam todas as batalhas travadas.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sem título

este é o tempo dos milhares de naufrágios
e das dezenas de salvamentos.

praia convento

a flat earth society ignora os princípios da física.

por mais voltas que dê, vou dar sempre a ti.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

gente-nada

aguarda que o pó e a pele
abandonem o tempo
para não restar
no que comes,
vestígio das mãos sujas
e quando não chega o tempo
a escola ensina quão moderno
é o mundo da internet
e as televisões apagam a luz
para adormeceres acordado

e das crianças-nada
escravos-nada
homens-nada
mulheres-nada

já ninguém se pergunta
a não ser essa galáxia de gente-nada
que é a maioria.

domingo, 9 de julho de 2017

headline

desmontada rede de crime organizado
dezenas de líderes políticos e religiosos
presentes a tribunal por falsificação de esperanças.

terça-feira, 4 de julho de 2017

inconquistável

envia toda a armada
naus fragatas e galés
todos os homens e munições
usa toda a força
e a coragem de derramar nas minhas praias todo o teu sangue

se queres conquistar-me a américa indígena.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

solstício

tivemos um solstício curto
ao contrário dos que vivem as horas
independentemente da época
umas sobre as outras sem distinção
uma noite curta
um dia não tão longo quanto a translacção do planeta parecia permitir
traídos por uma precessão própria quem sabe

isto de a terra ter dois pólos acaba por influenciar os nativos de todos os signos
poemas madrugadas
poemas meia noite
e tanto o sorriso se esvai em lágrimas
como os pulsos latejam sangue
pressuroso para escorrer sob as unhas dos que

sem saber da estrela polar

se desorientam por mais que gritem ao vento


tivemos um solstício curto
disso nada sabem os sãos
para quem os dias e as noites
e as horas e os minutos têm todos, uns atrás dos outros, para sempre, o mesmo comprimento
de uma cobra que se alimenta da cauda sem princípio nem fim
que começa e acaba no espectro do audível
na vibração perceptível
de todas as partículas
menos as de si próprios
que passaram a barreira do som
e já só os gatos as ouvem

tivemos as mãos atadas
por uma guita fina
chamada vontade
ou falta dela
tivemos as mãos libertas
por uma faca romba
do mesmo nome
ou falta dele.

eu nunca serei o cheiro da chuva no chão
porque não cheguei a nuvem

eu nunca serei foz
porque me afoguei na nascente.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

sem título

muitos gatos
ao redor do eclipse
e uma chama ondulando numa bandeira
à beira do mar
nas mãos de uma criança de olhos vadios
joelhos rotos
e ganas de comandar um exército
capaz de marchar sobre as ondas
em noites de vendaval

guerreiros que nos resgatam
dos túmulos onde morremos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

sem título

depenei para quase sempre o maço de tabaco
na ressaca deste chuto nas veias do infinito
resta-me um último cigarro
a que puxarei lume
com a ponta do cérebro que me resta

ainda acesa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

sem título

apesar da taxonomia
não estamos tão distantes das árvores
não é o tronco que nos faz firmes
mas as raízes.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

sem título

trago aceso o rastilho dos séculos
que percorri numa nave de destroços
até chegar a este estuário
porque a água procura sempre o ponto mais baixo
e lavra sobre a terra vales
com a força de parir mundos
como só as artesãs.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

viagens

estava a estrela venérea já tombando por ali abaixo
no ângulo agudo debruçado sobre o ocidente
e capella ainda chifrada no zénite
quando os cânticos da noite me trouxeram
as letras para este verso:

o granito
se eu fosse uma rocha seria plutónica.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

sem título

estou certo de que ali à beira da livraria do Mondego ainda para lá se vendiam morangos, maçãs e laranjas, mas um ano sobre a passagem referida faz-me assumir e esperar que sejam já outros. o frio substituiu a revolta da chuva e do vento e congelou-nos a respiração que agora se prende na garganta como aqueles nós que nos ficam nos momentos de embargo. tal é a temperatura e o inverno. 
e vem-se por ali abaixo, por entre as montanhas, cortando o ar com um gume motorizado e jamais se adivinha o que vem a seguir, apesar de ter feito já tantas vezes a mesma estrada. nunca contes com um livro escrito na vida. a noite passada, viraste as páginas ímpares sem te dares conta das pares. 
nessa livraria grande que orla o rio maior, desfolhas o passado e aguardas o futuro. mas não, mas nunca, como o peixe que fica na torrente sem nadar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

sem título

todos os que habitam a terra de nortia
merecem uma baía
no refúgio de uma encosta a sul
onde tu sejas a enorme montanha
e o poderoso quebra-mar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

sem título

sonhei que via terra
daqui do convés 
rente ao mar
mas o gajeiro
lá da gávea
não gritou.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

sem título

descobre o manto 
não é ignorância
é ocultação

habitua docemente os olhos
ao brilho
educa docemente a alma 
para a revolução

erguido e clarividente
nada peças docemente
reclama apenas o que é teu 
com toda a força
de cada mão.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

aço

a caldeira desta locomotiva
tem por combustível as almas
o seu vapor é sanguíneo
conquistado do suor
os caminhos são de ferro
e é com carvão que se tempera o aço.

domingo, 1 de janeiro de 2017

tempos modernos

açaima a poesia
porque os versos são potencialmente perigosos
trá-la sempre amordaçada
pelo top ten 
de romances dóceis 
de auto-ajuda
e já se fazem comprimidos para os revoltados
para os infelizes
que afinal são apenas alvo de uma depressão 
de geração espontânea e que nada deve ao capitalismo
que além de vender entorpecimento em cápsula 
mediante receita 
também ajuda os autores de auto-sorrisos 
a tristeza é o negócio do século
e a solidão é o sintoma da epidemia silenciosa
que nos aliena de nós próprios e nos expropria 
da mais poderosa propriedade: a inquietação
felizmente, restar-nos-ão sempre as redes sociais
como placebo em que o princípio activo é a publicidade 
do lado direito do ecrã.