quinta-feira, 29 de outubro de 2015

sem título

há lá nome de bebida quente mais poético
do que
café sem princípio?

para mim é um, se faz favor. sem princípio nem fim.

sábado, 17 de outubro de 2015

o futuro escrevemos nós

chegou por estes dias
um envelope selado com o lacre dos séculos
chegou de mão em mão porque privatizaram os correios
no destinatário lia-se "presente",
no remetente, "futuro".
no interior, uma carta em branco em que faltava apenas escrever uma palavra.

"comunismo".

terça-feira, 15 de setembro de 2015

sem título

de um naufrágio podem salvar-se as almas
havendo arrependimento
mas salvam-se corpos
havendo terra firme

tu és terra firme.

domingo, 30 de agosto de 2015

teoria

só quem nunca sentiu os teus lábios pode dizer que tudo é relativo.

As armas - tradução de "Des Armes", de Léo Ferré.

As armas, as bonitas, as brilhantes
As que devemos limpar amiúde para o prazer
E que devemos acarinhar como para o prazer
E são, ainda, o que faz sonhar os que vivem em comunhão.

As armas, azuis como a Terra
As que devemos guardar no calor do fundo da alma
Nos olhos, nos corações, nos braços de uma mulher
Que guardamos dentro de nós como se guarda um mistério.

As armas, no segredo dos dias
Sob a erva, no céu e na escrita
As que te farão sonhar muito tarde nas leituras
E que trazem a poesia ao discurso.

As armas, as armas, as armas
E os poetas de serviço ao gatilho
Para acender os últimos cigarros
No fim de um verso francês brilhante como uma lágrima.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

mar

essa maresia de sal
essa habituação de água
essas fragas firmes
que nunca vencem a batalha
esse fundo escuro
essa lua espalhada
esses cardumes dúcteis
que perderam o caos no dia em que nasceram
do meu sangue os elementos químicos e as moléculas.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

curta é a viagem quando ansiamos a lonjura

as bermas da estrada fundem-se
passado o rubicão da miragem
do ponto de fuga sobrará
a falta de esconderijo
não importa o destino
nem a viagem.

quantas milhas faltam para o horizonte?
e as bermas da estrada que se desentrelaçam
na vertigem de chegar
não há milhas que cheguem para confortos que não existem.

terça-feira, 7 de julho de 2015

cardiofrágio

naufragar.
nave desfaz-se contra fragas.
há-de se fazer um verbo para quando
nas fragas se desfaçam corações.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

a questão é a resposta é a questão

a substância radical dos homens 
a seiva sanguínea das almas
é em si mesma destino e origem
é procurar essência na terra funda
mergulhar na escuridão universal 
com uma candeia apagada
e tactear o mundo com as pontas do cérebro

a finalidade
o sentido
a resposta
corpórea matéria de tão densa 
é a pergunta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

sábado, 13 de junho de 2015

no boundaries theory

da mesma árvore os frutos
na estação certa
do mesmo olhar uma chama intensa
na noite certa
não há limite de vezes para morrer de amor
pela pessoa certa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

versos para vermes

hoje não nos falta poesia, falta-nos coragem
e só isso te dá coragem para que fales de poesia.

terça-feira, 9 de junho de 2015

jardim de inferno

enquanto sob os teus pés se contorcem as labaredas
a figueira-do-diabo ferve-te as artérias
e o sono falta-te como te falta o aconchego
de uma voz que murmura
as folhas caídas de um outono distante
crepitam agora toda a noite
a lava ilumina apenas os que fecham os olhos
não é um incandescência qualquer.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

sem título

ainda tenho na ponta dos dedos
o sabor da tua alma
na língua
o tacto telúrico do teu calor.

do sol raios já deitados douram a minha pele
e nua abraças a minha cor acesa.

até que a luz, de tão rara, se extinga.

terça-feira, 2 de junho de 2015

sem título

é natural quartzo hialino
ser vidro 
cacau ser chocolate de leite
é natural alma ser corpo
e pele ser apenas superfície
é natural no mundo de plástico
flores verdadeiras 
não merecerem água.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

História

o homem constrói o mundo
o tempo é simultaneamente matéria-prima, meio e substrato
é o materialismo poético.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

última página

esta é a última página deste livro
que no horizonte falso acendeu madrugadas
e estrelas
e no fogo consumiu manhãs e noites que nunca foram frias
esta é a última página deste livro

a primeira da minha vida
rasguei-a
ao vento que te agitava os cabelos
e entrava vindo do mar na casa em que não escrevi prefácio
a última página do livro não é a melhor

é a última
sem ela restaria a edição póstuma reunida pelos familiares sobreviventes.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

sem título

as flores caem
o fim é o princípio
e as flores nascem
o princípio é o fim
só a morte semeia a vida

o espaço entre os corpos é o vazio
o mais sólido dos preenchimentos
deixar que me tome nos braços o medo e o precipício
para nos meus tomar o voo da coragem

segunda-feira, 11 de maio de 2015

acordo ortográfico

bem sei que a escrita não faz parte da Língua
ainda bem.
escrever ato não escrevo
persisto no acto
não gosto de ser lambido por uma língua morta.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

sem título

há um barco que nos leva
através da vaga.
sob a maresia há portos de abrigo.
ao longe. após as fragas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

terça-feira, 5 de maio de 2015

estética do domínio II

toda a pobreza é bela aos olhos do homem que negoceia peles, ossos, braços e cérebros de outros homens.

terça-feira, 28 de abril de 2015

vertigem

a vertigem
é um ponto de fuga
um nadir desimpedido
de espaço nenhum 
entre nós e a mais distante parede do universo

a vertigem 
é um ponto bem debaixo dos teus pés
quando não há chão que pises

a vertigem 
é a expiração 
que não se segue de inspiração.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

sem título

que as lâminas de água dos rios se perturbem
e a turbulência agite as moléculas do tempo

do tempo
esse companheiro assassino
que nos enfia o veneno oxidante
pela alma adentro
até aos pulmões.

terça-feira, 24 de março de 2015

sem título

de quantas vozes o destino
é assassino
de quantos destinos as mãos
são o martelo e o escopro
de todos o céu escuro só mostra
pequenos pontos

a astronomia e o bom senso negam relação

de todos é o sopro
que trazemos dentro do coração
o mais constante
o mais fiel e dedicado artesão


segunda-feira, 23 de março de 2015

segunda semana

da janela por onde olho
o longe quase me toca a ponta dos dedos
o beijo no ombro
o cheiro da manhã
de maio mesmo aqui
enquanto passa ao longe uma semana
que navega as águas do rio.

domingo, 22 de março de 2015

sem título

quando o futuro é um espinho
que se te crava na garganta
e o presente um peso
que te amarra ao fundo do mar
toda a tua esperança é o passado
e o passado nunca é esperança

sexta-feira, 20 de março de 2015

sem título

das frases
dos ventos
e das rosas
sopras um beijo
da raiz
da estrada
que me leva
inexorável a ti
como um fruto
ou uma praia
de cujas ondas a espuma
apaga um beijo na areia
que efémero
fica para sempre
escrito
nas letras
de um poema épico
que por falta de dom
nunca saberei escrever.

terça-feira, 17 de março de 2015

da arte poética

um poema é um conjunto de palavras que requer um trabalho que não tenho, não sei ter, nem ambiciono conseguir ter. a poesia enquanto arte é um fascínio a que felizmente muitos nos podemos entregar porque há quem a ela se entregue como a um cuidado ofício, como a um esforço de uma vida porque um verso perfeito é como uma peça única, com horas de trabalho de concepção, execução, aperfeiçoamento.
o exercício que realizo está muito aquém do esforço dos poetas, tal como estaria aquém do esforço de um escultor eu partir uma rocha casualmente com um escopro.
no entanto é a esse exercício que quero e posso dedicar-me.
não é dizer uma coisa na sua forma perfeita, no seu estado poético. é dizer uma coisa no momento em que ela surge e me toma, mesmo que no estado sólido.

é uma questão mais de tempo que de forma ou conteúdo. se a palavra tem espaço, e tem forma certa, também tem de ter tempo. tempo certo.

esculpir cuidadosamente o verbo, a forma, adaptá-la magistralmente ao conteúdo, é um dom que dificilmente se adquire e, certamente, não é para preguiçosos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

(o-som-da-pequena-flauta-do-amolador)

uma alvorada cortada pelo gume
da coragem afiada
na pedra de amolar corações
e o homem que assobia
e faz chover já não precisa de pedalar mais
na bicicleta parada
porque o tempo acabou
e de ora em diante
só chove.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

silêncio

um fio de céu
escorre nos ponteiros da bomba-relógio
que bate no peito
dos descoraçoados
a cada segundo
do primeiro suspiro
sob o mar de copas
por onde os raios da noite
penetram agudos
os pulmões exaustos
lâminas frias que rombas
rasgam o som que fazemos
quando estamos em silêncio

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

sem título

das raízes da sombra à luz da folha
pudesse tanta dignidade
contagiar outras florestas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

no meu país

aqui no meu país só passa fome quem quer
que migalhas de ricos há espalhadas com fartura
no caixote do lixo da burguesia
que dá pelo nome de i pê ésse ésse
e não falta gente que atire restos aos pobres
como quem manda milho aos pombos
com a diferença que é mais nobre combater a solidão
que a ocupação de tempos livres com gente
para fazer da caridade um penduricalho mais barato que uma sessão de cabeleireiro
ou um passeio da avenida que é da liberdade de alguns
desde que tenham carro comprado após dois mil

no meu país as crianças só passam fome porque querem
ninguém lhes deu ordem de ir nascer na periferia
com tanto condomínio de luxo por aí devidamente licenciado
ou terem ido escolher vir ao mundo só com mãe
e sem pai isto só visto

no meu país os velhos só passam fome porque querem
porque toda a gente sabe que enquanto aqueles corações batem
há uma veia de empreendedorismo a latejar
e um banco pronto prontinho a financiar o arrojo dos septuagenários sem pensão

no meu país
diga-se a bem da verdade
só fica sem emprego quem quer
só vive na solidão quem quer

só morre no mar quem quis viver pescador e ousou ter fome em dia de temporal

só morre de neoplasia maligna quem quis ser mineiro e inspirar urânio 
como quem respira o ar do jardim do hotel de seis estrelas

no meu país só fica à porta do hospital quem quer
pode sempre entrar
nem que seja pela porta da morgue

no meu país só é despedido quem quer porque escolheu precisar de trabalhar
em vez de ter um banco ou pelo menos uma cadeia de hipermercados

no meu país só entrega casa ao banco quem quer
podia sempre comprar a pronto 

aqui neste país
só passa fome quem quer
enquanto diz merda quem pode.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

hegemonia

vieram os lobos
esta é uma noite fria.
depois de a voz se ouvir
como um punho
que podia destruir com a verdade
todas as correntes e cadeias,
não sobreviveu um grito
de testemunho nos manuais escolares.
nas voz dos homens uivam os lobos
que, infelizmente, também são homens.
a pele nua contudo é perene.
irrompe o sol de onde sempre nasce
aquecerá os campos e as cidades
não voltam os lobos a uivar
na voz dos homens.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

sem título

viemos sabemos do horizonte
um som desenhado no vazio
uma molécula de infinito
que se acendeu
uma fracção de matéria que se apropriou
da consciência sobre si mesma
um fio de presente
uma árvore de raízes enfiadas no passado
criança de braços estendidos ao futuro
uma ave antes de ter nome

não retornamos ao nascer do sol
apesar da madrugada

a origem é cada ponto da pele
onde as agulhas do tempo se espetam
gravando minutos numa tinta espessa
até que a casca nos envolva como a um sobro
e o horizonte nos tome em contra-luz no poente

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ars moriendi

das nuvens
dos raios de sol que chovem
das ondas do som que nos agita
nos perpassam como
varas rombas
dos cheiros
e das flores mortas
dos buracos escuros
e copos vazios
dos troncos robustos
do carvalho
do olhar dos homens perdidos
das mulheres amigas
do significado das letras
das palavras
das figuras
das sombras
das luzes
de cada braço da respiração
que nos arqueia
de cada flecha que suspiramos
em direcção ao vazio
que enche os peitos dos outros
e os outros somos nós
para os outros
do mundo
e das folhas avermelhadas do outono
que ano após ano se abate sobre
o nosso dorso já cansado
do tamanho
do volume
do abismo
do tempo
da fugacidade
da areia ser uma forma de luz
e os corpos nus uma recordação
do paraíso
e da impossibilidade de conter nos livros a velocidade.

e da aceitação.
do abraço.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

cosmos

é indiferente existirem fronteiras entre pessoas
ou pessoas entre fronteiras
o limiar divide nada
nem da terra aparta o céu o mar o voo das aves
ou os fluídos seminais
que na osmose constante fundem
todos os corpos
na fecundidade do pensamento
na afinal totalidade que as estrelas trazem no bojo
a que demos o nome de humanidade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

fogo e mar

todos os dias são nevoeiro
e ao fundo um navio
sobre águas escondidas
sob o espesso branco.
na lonjura dilui-se no horizonte
a esparsa luz.
albatroz a maior envergadura das aves marítimas
e do reino animal maior agoiro.
todo o mar é nosso.
não. todos somos do mar.

foi sob o céu negro que a história ardeu
sobre as águas tranquilas da baía.