quarta-feira, 25 de março de 2015

sem título

que as lâminas de água dos rios se perturbem
e a turbulência agite as moléculas do tempo

do tempo
esse companheiro assassino
que nos enfia o veneno oxidante
pela alma adentro
até aos pulmões.

terça-feira, 24 de março de 2015

sem título

de quantas vozes o destino
é assassino
de quantos destinos as mãos
são o martelo e o escopro
de todos o céu escuro só mostra
pequenos pontos

a astronomia e o bom senso negam relação

de todos é o sopro
que trazemos dentro do coração
o mais constante
o mais fiel e dedicado artesão


segunda-feira, 23 de março de 2015

segunda semana

da janela por onde olho
o longe quase me toca a ponta dos dedos
o beijo no ombro
o cheiro da manhã
de maio mesmo aqui
enquanto passa ao longe uma semana
que navega as águas do rio.

domingo, 22 de março de 2015

sem título

quando o futuro é um espinho
que se te crava na garganta
e o presente um peso
que te amarra ao fundo do mar
toda a tua esperança é o passado
e o passado nunca é esperança

sexta-feira, 20 de março de 2015

sem título

das frases
dos ventos
e das rosas
sopras um beijo
da raiz
da estrada
que me leva
inexorável a ti
como um fruto
ou uma praia
de cujas ondas a espuma
apaga um beijo na areia
que efémero
fica para sempre
escrito
nas letras
de um poema épico
que por falta de dom
nunca saberei escrever.

terça-feira, 17 de março de 2015

da arte poética

um poema é um conjunto de palavras que requer um trabalho que não tenho, não sei ter, nem ambiciono conseguir ter. a poesia enquanto arte é um fascínio a que felizmente muitos nos podemos entregar porque há quem a ela se entregue como a um cuidado ofício, como a um esforço de uma vida porque um verso perfeito é como uma peça única, com horas de trabalho de concepção, execução, aperfeiçoamento.
o exercício que realizo está muito aquém do esforço dos poetas, tal como estaria aquém do esforço de um escultor eu partir uma rocha casualmente com um escopro.
no entanto é a esse exercício que quero e posso dedicar-me.
não é dizer uma coisa na sua forma perfeita, no seu estado poético. é dizer uma coisa no momento em que ela surge e me toma, mesmo que no estado sólido.

é uma questão mais de tempo que de forma ou conteúdo. se a palavra tem espaço, e tem forma certa, também tem de ter tempo. tempo certo.

esculpir cuidadosamente o verbo, a forma, adaptá-la magistralmente ao conteúdo, é um dom que dificilmente se adquire e, certamente, não é para preguiçosos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

(o-som-da-pequena-flauta-do-amolador)

uma alvorada cortada pelo gume
da coragem afiada
na pedra de amolar corações
e o homem que assobia
e faz chover já não precisa de pedalar mais
na bicicleta parada
porque o tempo acabou
e de ora em diante
só chove.