quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

sem título

todos os que habitam a terra de nortia
merecem uma baía
no refúgio de uma encosta a sul
onde tu sejas a enorme montanha
e o poderoso quebra-mar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

sem título

sonhei que via terra
daqui do convés 
rente ao mar
mas o gajeiro
lá da gávea
não gritou.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

sem título

descobre o manto 
não é ignorância
é ocultação

habitua docemente os olhos
ao brilho
educa docemente a alma 
para a revolução

erguido e clarividente
nada peças docemente
reclama apenas o que é teu 
com toda a força
de cada mão.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

aço

a caldeira desta locomotiva
tem por combustível as almas
o seu vapor é sanguíneo
conquistado do suor
os caminhos são de ferro
e é com carvão que se tempera o aço.

domingo, 1 de janeiro de 2017

tempos modernos

açaima a poesia
porque os versos são potencialmente perigosos
trá-la sempre amordaçada
pelo top ten 
de romances dóceis 
de auto-ajuda
e já se fazem comprimidos para os revoltados
para os infelizes
que afinal são apenas alvo de uma depressão 
de geração espontânea e que nada deve ao capitalismo
que além de vender entorpecimento em cápsula 
mediante receita 
também ajuda os autores de auto-sorrisos 
a tristeza é o negócio do século
e a solidão é o sintoma da epidemia silenciosa
que nos aliena de nós próprios e nos expropria 
da mais poderosa propriedade: a inquietação
felizmente, restar-nos-ão sempre as redes sociais
como placebo em que o princípio activo é a publicidade 
do lado direito do ecrã.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

lembro-me do futuro

escrevi estes versos para os meus filhos
cujos nomes são desconhecidos
da maior parte
o tempo deixa-nos na memória apenas o passado que se acumula sob as finas camadas do presente
mas sabe seus nomes quem luta pelo futuro.

e nós, nós habitamos todo o tempo, e somos daquela porção da humanidade cuja memória guarda já o brilho da luz, o cheiro, e a história de amanhã. nós somos aqueles de quem as mãos, na verdade, são asas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

quantidade e qualidade

gosto da imagem do copo cheio de água turva pelas argilas em suspensão. em repouso as argilas tendem a pousar, quando a gravidade vence finalmente a agitação e a entropia do sistema baixa ao ponto de a água se separar dos pequenos pedaços de mineral.
é o mesmo copo, é a mesma água, são as mesmas argilas. contudo, pela quantidade de energia que se introduz no sistema, ou que se lhe retira, a alteração é de qualidade. água turva sem depósito no fundo do copo, água límpida e cristalina com as argilas em camadas tranquilas e opacas depositadas.
assim somos nós, um recipiente de lama cuja absorvância depende da agitação.