terça-feira, 27 de janeiro de 2015

sem título

viemos sabemos do horizonte
um som desenhado no vazio
uma molécula de infinito
que se acendeu
uma fracção de matéria que se apropriou
da consciência sobre si mesma
um fio de presente
uma árvore de raízes enfiadas no passado
criança de braços estendidos ao futuro
uma ave antes de ter nome

não retornamos ao nascer do sol
apesar da madrugada

a origem é cada ponto da pele
onde as agulhas do tempo se espetam
gravando minutos numa tinta espessa
até que a casca nos envolva como a um sobro
e o horizonte nos tome em contra-luz no poente

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ars moriendi

das nuvens
dos raios de sol que chovem
das ondas do som que nos agita
nos perpassam como
varas rombas
dos cheiros
e das flores mortas
dos buracos escuros
e copos vazios
dos troncos robustos
do carvalho
do olhar dos homens perdidos
das mulheres amigas
do significado das letras
das palavras
das figuras
das sombras
das luzes
de cada braço da respiração
que nos arqueia
de cada flecha que suspiramos
em direcção ao vazio
que enche os peitos dos outros
e os outros somos nós
para os outros
do mundo
e das folhas avermelhadas do outono
que ano após ano se abate sobre
o nosso dorso já cansado
do tamanho
do volume
do abismo
do tempo
da fugacidade
da areia ser uma forma de luz
e os corpos nus uma recordação
do paraíso
e da impossibilidade de conter nos livros a velocidade.

e da aceitação.
do abraço.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

cosmos

é indiferente existirem fronteiras entre pessoas
ou pessoas entre fronteiras
o limiar divide nada
nem da terra aparta o céu o mar o voo das aves
ou os fluídos seminais
que na osmose constante fundem
todos os corpos
na fecundidade do pensamento
na afinal totalidade que as estrelas trazem no bojo
a que demos o nome de humanidade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

fogo e mar

todos os dias são nevoeiro
e ao fundo um navio
sobre águas escondidas
sob o espesso branco.
na lonjura dilui-se no horizonte
a esparsa luz.
albatroz a maior envergadura das aves marítimas
e do reino animal maior agoiro.
todo o mar é nosso.
não. todos somos do mar.

foi sob o céu negro que a história ardeu
sobre as águas tranquilas da baía.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

peça para uma criança que não morre

do canto da escuridão, uma criança surge correndo, com uma certa pressa como se fugisse de alguém. a cor do seu vestido quase não se distingue do fundo negro, mas vemos do seu rosto um olhar de quem corre fugindo mas sem medo. não a apanharão, pensará ela enquanto corre, percorrendo o vazio escuro de um palco. atravessa-o e mesmo junto a nós vem, algo apressada, plantar uma pequena flor vermelha num montinho de terra feito à pressa com a que estava à mão. erguida do chão a pequena flor, a criança, olha em redor, passa o pé de roda da terra para a calcar e dar segurança às ainda frágeis raízes, e deixamos rapidamente de a ver.

dois homens surgem no escuro, com uma luz forte a iluminar-lhes o caminho. espingarda às costas, olham a flor, entreolham-se pouco tempo porque, como para autómatos, a existência do outro é um facto estranho, ao qual toda a importância dada é demasiada. já muito perto da flor, apontam-lhe as espingardas. um deles, ante a resistência inusitada da flor à voz de prisão e de joelhos no chão, mãos na cabeça, arranca-a do chão sem piedade, tira-lhe duas pétalas para análise posterior em laboratório e deixa abandonado o cadáver que ora jaz pelo monte de terra desfeito.

tudo é escuridão. os homens diluem-se nela. uma fresta de luz rente ao chão vem do nascente e ouvem-se os passos mais apressados de uma criança. vem com o mesmo vestido, porém mais apressada, a respiração mais difícil, os passos mais trementes. nas mãos traz uma flor e desajeitada mas cuidadosa, volta ao mesmo local, arranja de novo a terra, ergue de novo a flor, olha em redor, calca a terra, some no escuro.

dois homens surgem destacando-se do escuro. como é possível que a flor tenha de novo surgido? talvez tenha deitado sementes, talvez sejam necessárias medidas mais duras, uma pulverização do terreno com herbicidas, uma praga de gafanhotos, uma vigilância constante, quem sabe mesmo videovigilância. tudo ideias que podem e devem discutir e tudo ideias que tentaram. a flor morreu e tornou a surgir pelas mãos de uma criança que, sob as câmaras de vigiância ou o olhar mais atento das espingardas, sabia sempre como ali a levantar do chão que parecia estéril.

estéril não era. e a flor tornava, por vezes apenas por alguns minutos, a erguer-se na escuridão procurando o sol de que vivia. ou chamando o sol que a fazia viver.

certo dia, os homens construíram toda uma igreja, com sacerdotes e templos. era muito importante que ninguém se aproximasse da flor que teimava em nascer. era muito importante não a querer ver, não a querer cheirar. anos a fio e gerações atrás de gerações viveram aterrorizadas pela simples ideia de que fosse possível cheirar uma flor.

e no entanto, era uma criança quem teimava em resistir às ordens.

adiante, no fundo do escuro, uma projecção mostra como a comunicação social se empenha em dizer que a flor é má. que aliás, todas as flores são más, não só as vermelhas. todas, de todas as cores, é preciso acabar com elas. e se porventura no teu quintal a chuva trouxer uma qualquer flor, nem que seja daninha e espontânea, é teu dever arrancá-la do chão sem piedade e incinerá-la até que não reste qualquer cor.

a polícia secreta foi ao local, trocou impressões, recolheu provas. a igreja mandou muitos homens estudar o fenómeno para saberem como escrever livros com as mentiras certas. a alta hierarquia da igreja sugeriu finalmente que se fizesse de betão o chão onde as flores teimavam em brotar. que nenhuma flor romperia o betão sólido. assim se fez.

durante anos o betão não fendeu.

a chuva, o oxigénio e o sol, todavia, que alimentam e fortalecem flores, venceram a batalha e o betão, anos depois, viu abrir-se-lhe uma pequeníssima fenda, imperceptível para as autoridades do estado e da igreja. o suficiente para que a criança, logo surgisse de novo com uma flor na mão e enchesse com um punhado de terra a fenda minúscula. a flor nasceu no meio do betão. a criança, contudo, não escapou e foi capturada poucos minutos depois.

com as espingardas apontadas, e os dedos acusatórios da igreja sancionando a morte como forma única de expiação, a criança ajoelhou, ergueu os olhos, com serenidade e confiança. nenhuma arma disparou, ninguém mais exigiu o que fosse. porque a criança era afinal todos nós e o seu rosto um espelho onde se reflectiam todos os rostos da plateia.

a flor, ao canto, permaneceu.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

coragem

de onde vêm as sombras quando a venda que tens nos olhos te veda a luz e o escuro é uma ilusão de conforto onde até as crianças adormecem? e contudo, nas palavras estão as perturbações do campo electromagnético a que és alheio, no murmúrio do mar e na lonjura do horizonte estão os vultos que te convocam a levantar o rosto. quando semicerras os olhos, vendados, vês os traços do futuro desenhados a carvão pelos teus antepassados. vês nas árvores que pressentes, escrito o amor cravado com navalhas enquanto as folhas agitadas clamam por pássaros que testemunhem que são elas quem se levanta do chão aos céus, com braços ao alto e raízes fundas. são as contradições que nos matam, e o oxigénio que nos alenta. vês esboços de poemas ditos do fundo de um algar onde não podes cair. e os ecos dos gritos mudos dos morcegos despem a rocha da caverna em que tu próprio te escondeste por não teres as mãos atadas e o sossego te impedir de assaltar o ar livre. a humanidade nega-te a tua própria humanidade no conforto. mas tu sabes. no fundo tu sabes. que há luz e há vida. que é uma venda que a luz te nega como nos negamos a um prazer para obter outro, ou como negamos a coragem por medo do que significa coragem. medo. do que significa coragem.