sexta-feira, 30 de agosto de 2019

sem título

passou hoje um cometa
que afinal era um rio
ia por aí afora incandescente
como não veio na tv
não existiu
as suas labaredas queimaram todos os animais
as suas temperaturas explodiram todos os termómetros
as suas lágrimas emocionaram os crocodilos ou jacarés ou lá o que é
onças pintadas de todo o mundo uniram-se
e uns milhões de patacos apagaram  porra nenhuma
enquanto os cânticos mais antigos de trabalhar a terra lavaram a fuligem do fogo e o verdete da prata
dizendo ao mundo que até à árvore mais antiga
o rio domina.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

J.

nesse cavalo flamejante
todas as planícies do mundo
num segundo
que não acabasse nunca.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

sem título

disseram-me um dia que se alguma coisa levamos deste mundo
não me lembro mas era importante
na verdade, resta-nos a rua estreita
o amplo oceano sob o ar
as palavras dos mestres a soprar as velas
que nos movem vogando as cristas
do planeta que nos calhou na sorte
e os poemas dos outros
que encerram sempre o começo das estrelas
e o fim do mundo.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

sábado, 27 de abril de 2019

sem título

vim aqui,
a este poema,
dizer-te que foi o maior privilégio
rodar a chave na porta da tua casa
e que cada cerveja contigo
era a última coca - cola do deserto.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

a escola

toda a vida andei numa escola
sem aulas práticas nem valiam a pena as teóricas
e os amigos
ah! os amigos que são de todas as idades
e que ensinam e aprendem como os melhores professores 
para eles inventámos um nome 
camarada
nome de quem partilha a arma e a munição
o sangue e o coração
a boca aberta num grito ou fechada se for o caso 
de ser o silêncio a salvação
pode dar-se a situação
se fores preso, camarada
que isto de democracia é bonito
mas nunca é certo nas mãos da burguesia
podem estalar no ar foguetes 
e celebrar-se até em galas e sessões solenes
a pompa da circunstância do momento 
que isso, aprendi, não faz da miséria abundância
senão em novela venezuelana
em que o sonho de silicone 
surge no sono dos que vêem televisão 
toda a vida fiz essa licenciatura 
em direitos humanos de verdade sem prémios à mistura 
nem nobeis nem sakharovs 
que é como quem diz areia pós olhos 
e os camaradas sempre atentos 
as camaradas sempre em guarda
na linha da frente de rosto levantado 
ameaçados e com medo de perder a vida
sabendo que se não forem camaradas
a já perderam
fazem a escola sem recreio 
sem receio 
opção revolucionária
de fazer sobre os escombros do que aprenderam 
aquilo com que sonharam
não, não é por dentro que se muda 
caso contrário, estamos fora.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

uma rosa

esperei a queda de água de mil clepsidras
pelo teu cheiro
mantive-me à porta entreaberta dos planetas
sem saber das luas cheias
ou das florestas impossíveis
que do horizonte lançavam o azimute do futuro
para que os desnorteados seguissem seu rumo
esperei meia-vida do isótopo mais estável
pela cratera no meio do peito cheia de flores
e pelas pequenas galáxias espalhadas
um pouco por todos os lençóis
até que essa enchente derramasse sobre todas as peles
o toque de uma mão que não larga
que não desiste
que atravessa o vazio inteiro
do que já não nos separa.