sábado, 2 de novembro de 2019

sem título

o principal problema da verdade
é ser intransponível e sermos-lhe inescapáveis
é vir como um cometa daqueles que não são profecia
abater-se sobre o frágil corpo dos homens.
é assim uma música que nunca se esquece
da qual não sabemos se somos ouvintes ou acordes.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

o quarto estado

era preciso que chegasse alguém
arrombasse as portas
acendesse a luz
ou na escuridão riscasse um fósforo à moda antiga
alguém que viesse de chapéu ou boina ou fuzil
alguém que trouxesse vestidos os séculos num lenço ao pescoço
a aspereza dos condenados da terra nas mãos
e o sorriso das crianças ainda nos olhos
alguém que viesse a cantar em torno de uma fogueira
era preciso que chegasse alguém
que tivesse ardido numa pira
que tivesse sido executado amarrado ou de punho levantado
que fosse uma mulher de filho ao peito
ou de mão à ilharga
alguém que já tivesse pintado um quadro
ou que tivesse sido caçado como um escravo
por um cão no meio do algodão
alguém que já tivesse mesmo mesmo respirado
ar parado
era preciso que chegasse alguém
alguém que viesse na linha da frente de peito cheio
ou alguém que viesse atrás amedrontado,
mas que viesse.
era preciso que chegasse alguém
que derrubasse mentiras com os punhos
e construísse verdades com o olhar
que viesse na máquina do tempo
movida a energia nuclear ou a carvão.
era preciso que chegasse a voar
nas asas da rebelião.

era preciso que chegasse alguém
desses que todos os dias chegam
e desde sempre cá estão


sem título

se o caminho certo para chegar a algum lugar
implica andar com os pés assentes na terra
andar com a cabeça nas nuvens não é impeditivo
aliás
de quanto mais alto 
mais longe se avista.



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

sem título

passou hoje um cometa
que afinal era um rio
ia por aí afora incandescente
como não veio na tv
não existiu
as suas labaredas queimaram todos os animais
as suas temperaturas explodiram todos os termómetros
as suas lágrimas emocionaram os crocodilos ou jacarés ou lá o que é
onças pintadas de todo o mundo uniram-se
e uns milhões de patacos apagaram  porra nenhuma
enquanto os cânticos mais antigos de trabalhar a terra lavaram a fuligem do fogo e o verdete da prata
dizendo ao mundo que até à árvore mais antiga
o rio domina.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

J.

nesse cavalo flamejante
todas as planícies do mundo
num segundo
que não acabasse nunca.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

sem título

disseram-me um dia que se alguma coisa levamos deste mundo
não me lembro mas era importante
na verdade, resta-nos a rua estreita
o amplo oceano sob o ar
as palavras dos mestres a soprar as velas
que nos movem vogando as cristas
do planeta que nos calhou na sorte
e os poemas dos outros
que encerram sempre o começo das estrelas
e o fim do mundo.

sexta-feira, 3 de maio de 2019