quinta-feira, 12 de julho de 2018

faz-me uma pergunta
mas com as mãos em concha
enquanto guardam a água da chuva
ou enquanto fazes o pino
faz-me uma pergunta com a boca
e faz-me um pássaro com as mãos
no ecrã táctil da minha pele.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

sem título

chegará o tempo
de ser tudo nosso
caralho
das casas ao pão
bandeiras e palavras não serão alibi
nem justificação
tão culpado é o que lucra
como o que lhe dá a mão.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

faz scroll no feed homeopático

é preciso andarmos muito doentes
para procurar tanta cura
em citações de frases-feitas numa linha de montagem
é preciso estar muito só
para procurar tanta
"auto" e tanta "ajuda",
tão sós que não temos quem nos "hetero-ajude"
e nos consolamos com a felicidade de papel dos desconhecidos
que nunca fotografam o que lhes acontece depois da chuva,
tão desalentados que aceitamos como terapia a banalidade
de um placebo inspiracional


é preciso andar muito vazio para ansiar tanto uma vida cheia,

é preciso andar muito triste para procurar tão desesperadamente a felicidade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

atlântico

manda vir
todas essas lágrimas da áfrica americana
numa carta via furacão
para que possamos também nós aqui
chorá-las
até que juntos vençamos o oceano
em uma jangada de revolta.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

de como as pessoas se amam

as pessoas amam-se logo ali de pés nus na relva húmida bem no início do verão, amam-se na cama, amam-se no chão. as pessoas amam-se num fio de vontade que serve de cabo de amarra em temporal.
as pessoas amam os amigos de peito à prova de bala. amam-se assim de coração, e sob as estrelas, nuas ou não.

as pessoas amam-se p'ra sempre apaixonadas ou até amanha, camaradas.

as pessoas amam a poesia que lhes escrevem, principalmente se por analfabetos com ganas de vencer a razão. um dedo, uma língua, ou toda uma praia ao pôr-do-sol na palma na mão. as pessoas amam a sagração da primavera ou todas as quatro estações.
de quando em quando as pessoas até amam quem lhes diz não.
amam enquanto o amor as separa e talvez menos quando as une. são assim os humores que nos percorrem por dentro no sangue complexo dos amaldiçoados.
as pessoas amam-se sem intermediários mas precisam deles para receber a primeira carta e sorriem quando amam as letras, principalmente se forem à mão.
as pessoas amam as asas abertas no céu ou a membrana em chamas do inferno porque o purgatório é uma ave engaiolada.

as pessoas amam, acima de tudo, existir em mais do que em si próprias e ser casa de alguém.

tudo isto

é verdade
sou eu que trago a semente
mas só tu verteste essas lágrimas
se quero viver nos poros da tua pele
quando morrer só quero
ir para o céu da tua boca.