terça-feira, 24 de abril de 2018

sem título

tenho portões reforçados e muralhas vigiadas
casa roubada trancas à porta
os arqueiros matam à distância a esperança
mesmo a camuflada de paixão
e perfuram com a gravidade toda na ponta das flechas
a mais elaborada armadura
tenho um fosso onde nadam escondidos
os mais temíveis monstros marinhos
certo dia tragaram de uma vez um arco-íris
que avançava intrépido sobre a treva
vinha convencido de bem sucedida conquista
tenho mantimentos para dez mil anos de cerco
e alcatrão suficiente para banhar em chamas
o maior exército do mundo
todo o meu castro pulsa entre a inexistência e a miragem
é um forte à prova de catapulta.

e um cavalo de tróia bastou.
não aprendi nada com a história.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

sem título

podes disfarçar com amor o teu desprezo,
do verdadeiro e do contrafeito,
mas não de contrabando.
isso de saltar as fronteiras da tua pele
é aventura em excesso para esse miocárdio
movido a energia eólica
porque no peito só te sopra vento.
e nem sequer uma tempestade
resta aquela massa desértica
de quem não se abandona porque não pode voar.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

S.

tenho uma irmã gémea que nasceu com quatro anos de diferença.

pode separar-nos meio globo
teremos sempre as mãos dadas
não há fronteiras no nosso abraço
mesmo que pulsem o mesmo sangue dois corações.

quinta-feira, 29 de março de 2018

versos pérolas

gosto dos versos enlameados
com um odor humano animal 
antes de perfumes e colónias
um sangue suor lágrimas 
pelos poros e pelas estrofes

assim de dignidade inconfundível 
como a de umas mãos robustas 
ou de uma pele curtida
gosto de versos pérolas

a porcos.

sábado, 24 de março de 2018

húmus

é à sombra ancestral
à raíz de todo o mundo
ao musgo primordial
à beleza amazónica

que nos levam todos os caudais

de regresso à morte

ao descanso orgânico do húmus.

quarta-feira, 7 de março de 2018

sem título

há maçãs
laranjas
clementinas
a bem da verdade, hesitei em escrever que também havia batatas. talvez porque batata caia fora do leque das frutas e entre já no ramo dos tubérculos ou então pelo simples facto de não ser tão bonito o nome batata quanto é o nome de clementina. veja-se que não faltam mulheres com o nome do segundo e não conheço nenhuma que dê pelo primeiro. seja como for, também havia batata.
estas viagens vão vendo passar as estações do ano, que tanto espelham o mondego como o perturbam ao expoente da agitação possível para um fetch tão pequeno. desde a corrida laminar de moléculas deslizantes à torrente que até os peixes leva, vem um ano sobre outro ano.
a livraria sempre assente na estante do vale lamenta ocupar apenas um troço do itinerário. mas as lombadas litológicas dos livros são imagem permanente e talvez até motivo para as recorrentes linhas. por esse rio acima, também por esse rio abaixo, as estações correm e deixam-me sempre a sensação de que a chuva sobre a água é como uma lavagem à alma.