sexta-feira, 6 de abril de 2018

S.

tenho uma irmã gémea que nasceu com quatro anos de diferença.

pode separar-nos meio globo
teremos sempre as mãos dadas
não há fronteiras no nosso abraço
mesmo que pulsem o mesmo sangue dois corações.

quinta-feira, 29 de março de 2018

versos pérolas

gosto dos versos enlameados
com um odor humano animal 
antes de perfumes e colónias
um sangue suor lágrimas 
pelos poros e pelas estrofes

assim de dignidade inconfundível 
como a de umas mãos robustas 
ou de uma pele curtida
gosto de versos pérolas

a porcos.

sábado, 24 de março de 2018

húmus

é à sombra ancestral
à raíz de todo o mundo
ao musgo primordial
à beleza amazónica

que nos levam todos os caudais

de regresso à morte

ao descanso orgânico do húmus.

quarta-feira, 7 de março de 2018

sem título

há maçãs
laranjas
clementinas
a bem da verdade, hesitei em escrever que também havia batatas. talvez porque batata caia fora do leque das frutas e entre já no ramo dos tubérculos ou então pelo simples facto de não ser tão bonito o nome batata quanto é o nome de clementina. veja-se que não faltam mulheres com o nome do segundo e não conheço nenhuma que dê pelo primeiro. seja como for, também havia batata.
estas viagens vão vendo passar as estações do ano, que tanto espelham o mondego como o perturbam ao expoente da agitação possível para um fetch tão pequeno. desde a corrida laminar de moléculas deslizantes à torrente que até os peixes leva, vem um ano sobre outro ano.
a livraria sempre assente na estante do vale lamenta ocupar apenas um troço do itinerário. mas as lombadas litológicas dos livros são imagem permanente e talvez até motivo para as recorrentes linhas. por esse rio acima, também por esse rio abaixo, as estações correm e deixam-me sempre a sensação de que a chuva sobre a água é como uma lavagem à alma.

quinta-feira, 1 de março de 2018

do restelo para o mundo

transpusemos a ombreira
da humanidade
numa fuga vertiginosa
para o que os velhos
(é sempre assim)
vêem como abismo.

é nessa profundidade
contudo
que as candeias se acendem
e os caminhos
ei-los: a época produz os homens necessários.

somos uma massa universal
feita de milhões de passados
somos uma colmeia de gigantes
uma montanha de corações nas mãos
numa nave levada por todos os braços
vogando sobre o dorso do cosmos
rumo ao sol do futuro.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

sem título

vim ao mundo montado numa semente de tempestades
como todos os outros
e foi sempre a chuva no rosto que se confundiu com lágrimas
quis cavalgar o tempo como a crista da duna
de um deserto sem fim
e as cidades apareceram no horizonte
todas habitadas de estações do ano
e pequenas amplitudes térmicas

estávamos nus nesse sonho de humanidade
e sorvíamos dos lábios uns dos outros
as gotas de timidez enquanto sorríamos levemente
as florestas tropicais cobriam nossos corpos de lama
e os rios lavavam as almas ardentes no seu caudal

a bruma envolve a lâmina por sobre a qual caminhamos
afiada sob os pés descalços
sem perdão e em sangue
não há forma de caminhar sem deixar rasto
e os batedores pouco treinados podem encontrar-nos
camuflados uns entre os outros
em pilhas de gente viva que finge como batráquios
a morte.

sem título

em quanto mar
em quantas léguas de tempestade
persiste intacta esta embarcação

é por ter alma de recife
que vivo submerso
e morro afogado
a cada inspiração.