há maçãs
laranjas
clementinas
a bem da verdade, hesitei em escrever que também havia batatas. talvez porque batata caia fora do leque das frutas e entre já no ramo dos tubérculos ou então pelo simples facto de não ser tão bonito o nome batata quanto é o nome de clementina. veja-se que não faltam mulheres com o nome do segundo e não conheço nenhuma que dê pelo primeiro. seja como for, também havia batata.
estas viagens vão vendo passar as estações do ano, que tanto espelham o mondego como o perturbam ao expoente da agitação possível para um fetch tão pequeno. desde a corrida laminar de moléculas deslizantes à torrente que até os peixes leva, vem um ano sobre outro ano.
a livraria sempre assente na estante do vale lamenta ocupar apenas um troço do itinerário. mas as lombadas litológicas dos livros são imagem permanente e talvez até motivo para as recorrentes linhas. por esse rio acima, também por esse rio abaixo, as estações correm e deixam-me sempre a sensação de que a chuva sobre a água é como uma lavagem à alma.
quarta-feira, 7 de março de 2018
quinta-feira, 1 de março de 2018
do restelo para o mundo
transpusemos a ombreira
da humanidade
numa fuga vertiginosa
para o que os velhos
(é sempre assim)
vêem como abismo.
é nessa profundidade
contudo
que as candeias se acendem
e os caminhos
ei-los: a época produz os homens necessários.
somos uma massa universal
feita de milhões de passados
somos uma colmeia de gigantes
uma montanha de corações nas mãos
numa nave levada por todos os braços
vogando sobre o dorso do cosmos
rumo ao sol do futuro.
da humanidade
numa fuga vertiginosa
para o que os velhos
(é sempre assim)
vêem como abismo.
é nessa profundidade
contudo
que as candeias se acendem
e os caminhos
ei-los: a época produz os homens necessários.
somos uma massa universal
feita de milhões de passados
somos uma colmeia de gigantes
uma montanha de corações nas mãos
numa nave levada por todos os braços
vogando sobre o dorso do cosmos
rumo ao sol do futuro.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
sem título
vim ao mundo montado numa semente de tempestades
como todos os outros
e foi sempre a chuva no rosto que se confundiu com lágrimas
quis cavalgar o tempo como a crista da duna
de um deserto sem fim
e as cidades apareceram no horizonte
todas habitadas de estações do ano
e pequenas amplitudes térmicas
estávamos nus nesse sonho de humanidade
e sorvíamos dos lábios uns dos outros
as gotas de timidez enquanto sorríamos levemente
as florestas tropicais cobriam nossos corpos de lama
e os rios lavavam as almas ardentes no seu caudal
a bruma envolve a lâmina por sobre a qual caminhamos
afiada sob os pés descalços
sem perdão e em sangue
não há forma de caminhar sem deixar rasto
e os batedores pouco treinados podem encontrar-nos
camuflados uns entre os outros
em pilhas de gente viva que finge como batráquios
a morte.
como todos os outros
e foi sempre a chuva no rosto que se confundiu com lágrimas
quis cavalgar o tempo como a crista da duna
de um deserto sem fim
e as cidades apareceram no horizonte
todas habitadas de estações do ano
e pequenas amplitudes térmicas
estávamos nus nesse sonho de humanidade
e sorvíamos dos lábios uns dos outros
as gotas de timidez enquanto sorríamos levemente
as florestas tropicais cobriam nossos corpos de lama
e os rios lavavam as almas ardentes no seu caudal
a bruma envolve a lâmina por sobre a qual caminhamos
afiada sob os pés descalços
sem perdão e em sangue
não há forma de caminhar sem deixar rasto
e os batedores pouco treinados podem encontrar-nos
camuflados uns entre os outros
em pilhas de gente viva que finge como batráquios
a morte.
sem título
em quanto mar
em quantas léguas de tempestade
persiste intacta esta embarcação
é por ter alma de recife
que vivo submerso
e morro afogado
a cada inspiração.
em quantas léguas de tempestade
persiste intacta esta embarcação
é por ter alma de recife
que vivo submerso
e morro afogado
a cada inspiração.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
sem título
este é o meu solo
marejado pela bruma
salgado pelo suão
não sou árvore e - certamente
fora do reino
seria erva daninha -
mas é este o substrato das minhas raízes
braços ao alto coração de seiva
o mar constante.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
estética do domínio
quando Jenner descobriu o poder de inocular organismos com agentes infecciosos enfraquecidos estava a salvar a humanidade de pragas desnecessárias. o capitalismo aprendeu os princípios da vacina: hoje já não nos esconde a verdade, faz dela filmes de sucesso, êxitos de bilheteira onde pagamos para aprender como funciona a bolsa de valores, o mercado financeiro, a exploração dos diamantes em África, como funcionam as farmacêuticas, as empresas de tabaco, enquanto comemos umas pipocas.
ao jantar, com sorte ainda vemos umas bombas a destruir uma escola ou duas no noticiário.
o agente infeccioso, enfraquecido - porque é diferente aprender sobre diamantes de sangue a comer pipocas do que a levar chicotadas; porque é diferente ver uma criança a morrer de fome do que não ter como alimentar um filho -, entra-nos pelo sangue adentro.
doses homeopáticas de verdade. eis a vacina contra a acção, a imunização da revolta e a estetização da miséria.
ao jantar, com sorte ainda vemos umas bombas a destruir uma escola ou duas no noticiário.
o agente infeccioso, enfraquecido - porque é diferente aprender sobre diamantes de sangue a comer pipocas do que a levar chicotadas; porque é diferente ver uma criança a morrer de fome do que não ter como alimentar um filho -, entra-nos pelo sangue adentro.
doses homeopáticas de verdade. eis a vacina contra a acção, a imunização da revolta e a estetização da miséria.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
círculo
estes versos não fazem falta nenhuma,
não têm destino de ser cimento das almas partidas
nem podem ser fogo de artifício a abrir-se em flores
na alegria de uma noite de verão,
são o que não falta
apesar de faltar verdade
e serem verdade
as letras
não destes, mas de todos os versos do mundo
que são verdade
por não fazerem falta.
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