quando Jenner descobriu o poder de inocular organismos com agentes infecciosos enfraquecidos estava a salvar a humanidade de pragas desnecessárias. o capitalismo aprendeu os princípios da vacina: hoje já não nos esconde a verdade, faz dela filmes de sucesso, êxitos de bilheteira onde pagamos para aprender como funciona a bolsa de valores, o mercado financeiro, a exploração dos diamantes em África, como funcionam as farmacêuticas, as empresas de tabaco, enquanto comemos umas pipocas.
ao jantar, com sorte ainda vemos umas bombas a destruir uma escola ou duas no noticiário.
o agente infeccioso, enfraquecido - porque é diferente aprender sobre diamantes de sangue a comer pipocas do que a levar chicotadas; porque é diferente ver uma criança a morrer de fome do que não ter como alimentar um filho -, entra-nos pelo sangue adentro.
doses homeopáticas de verdade. eis a vacina contra a acção, a imunização da revolta e a estetização da miséria.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
círculo
estes versos não fazem falta nenhuma,
não têm destino de ser cimento das almas partidas
nem podem ser fogo de artifício a abrir-se em flores
na alegria de uma noite de verão,
são o que não falta
apesar de faltar verdade
e serem verdade
as letras
não destes, mas de todos os versos do mundo
que são verdade
por não fazerem falta.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
pergunto
esta ferida fado
aberta
quantas cicatrizes deixará
na vida de um povo
um dia que a veja com os olhos do futuro.
aberta
quantas cicatrizes deixará
na vida de um povo
um dia que a veja com os olhos do futuro.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
triunfo
tem o seu quê de injustiça
que a sério mesmo a sério
quem leva os murros no estômago
seja quase sempre
quem o tem vazio.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
chegada
eis-nos à chegada
do fim do cansaço
para trás a inesquecível estrada
as feridas da viagem fecham capítulos.
o pano húmido nos lábios
em que florescem rubras
as peónias
recompõe-me a coragem e a doçura.
quando a corrente puxa a embarcação e tu estás já no cais,
solta amarras.
do fim do cansaço
para trás a inesquecível estrada
as feridas da viagem fecham capítulos.
o pano húmido nos lábios
em que florescem rubras
as peónias
recompõe-me a coragem e a doçura.
quando a corrente puxa a embarcação e tu estás já no cais,
solta amarras.
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
maresia
desaconselha-se magia sem prescrição médica
e o diagnóstico correcto
os mares nunca respeitarão isso enquanto a lua
nos der de mão beijada as marés
e o pico do inverno se elevar sobre as nuvens
explodindo em labaredas nos corações de mãos dadas.
os tripulantes dos navios no horizonte
ao longe verão faróis
o que são na verdade as fogueiras dos meus olhos.
e o diagnóstico correcto
os mares nunca respeitarão isso enquanto a lua
nos der de mão beijada as marés
e o pico do inverno se elevar sobre as nuvens
explodindo em labaredas nos corações de mãos dadas.
os tripulantes dos navios no horizonte
ao longe verão faróis
o que são na verdade as fogueiras dos meus olhos.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
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