sábado, 4 de novembro de 2017

sem título

este poema não é sobre nós

quando a mão se nos estende
as polpas dos dedos são raízes para as galáxias
cabo que amarra ao ferro
no fundo do mar
iça do meio do peito
a alma segura
pelo estai dos desgraçados
que nunca desistem
de ser cais
da mais deserta embarcação.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

sem título

para onde vão os fantasmas
quando o amor se separa da carne
e o corpo exangue teima em não sucumbir.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

pagão

a chama no peito
humores semente
não é asséptico o clamor
da nossa beleza
porque isto de nascer de um ventre
de pele sanguínea
é sempre
um ardor que permanece
tanto nas asas
como no útero
dessa massa lama
se faz gente
que cavalga o mar
sobre o dorso dos monstros marinhos
e sobrevive a si própria
com amor
e nojo

deus, nosso pai, fez-nos à sua imagem.
felizmente saímos à mãe.

domingo, 29 de outubro de 2017

sem título

dias pequenos horas largas
a pousar no outono
a inesquecível melodia
do pôr-do-sol.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

sem título

foi inesperado o meu encontro
à mesa com jesus cristo
trazia um ar cansado
e eu espantado

depois disse-me que aquilo de transformar a água em vinho
era um truque de ilusionismo

e eu pensei
estamos fodidos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

sem título

enquanto o fumo do cigarro pensa 
eu vaporizo-me de um plasma aceso
tirar uma pausa
sem ter de fazer desconto de tempo
ao mesmo tempo que passa devagar
por entre a chuva lá fora o tempo
essa repetição em aceleração uniforme 
num movimento 
que 
não faço ideia 
se se parece mais com o do projéctil 
se com um linear
tendo porém por certo porque li num livro 
que é afectado pela gravidade
pela gravidade das coisas
e pela gravidade dos actos 
não há tempo que apague o passado 
não há tempo que leve o presente
todas as marcas são para sempre 

podemos não trazer na pele todas as cicatrizes
ou tatuagens
podemos não carregar as memórias
e ir largando por aí o lastro sobre as costas dos outros
podemos andar com relógio de bolso
sem hora certa
pendente de uma corrente
com azebre ou verdete
e nem por isso o porvir será livre de todas as nuvens
que já cruzaram o céu.

domingo, 15 de outubro de 2017

sábado, 14 de outubro de 2017

IV

na falta de cigarros
fiz um intra-venoso
destas nuvens de tempestade atlântica.

argonautas

o atlântico segundo consta
foi cruzado pelos heróis condenados
em naus de sangue
mas foram os poetas portugueses 
que descobriram o caminho marítimo para a lua.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

sem título

aqui chegados
eis que faltam os motivos 
para o amor grande
eis que nos falta o solo
para crescer
e o sol para erguer as folhas
verdejantes de clorofila
as nossas hastes já não são nada
além de pesados chifres 
onde só a custo alguém ergue bandeiras

confesso
que poucas paisagens me descobrem do chumbo líquido que me cobre
mas sorrio ao saber
que a humanidade nunca foi mais 
do que a carcaça do seu futuro.

titãs

nós somos os náufragos
deste navio 
o mundo é o aicebergue.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

domingo, 1 de outubro de 2017

cidade

a minha cidade tem as veias
a céu aberto
por onde escorre a sujidade
própria do amor

e o rio lambe os milénios
que guardamos nas casas dos nossos avós
enquanto esconde a bruma os falsos sorrisos
e se exaltam pela salsugem as rugas batidas pelo mar

esta taifa é livre nos corações livres
é um grito de Rebelo
um silvo de flecha no silêncio
uma trincheira de rebeldes
e só quem a ama a pode odiar.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

praia

aqui onde moro
a praia é tanto princípio como fim
descalço na espuma pequena
o equador do tempo
revolve sempre os mesmos seixos.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

cenotáfio

o veneno mais letal é a ilusão
não deixa vestígio na toxicologia
um polónio do ego
uma viagem pelos sítios mais inúteis
pelos abismos menos entusiasmantes
das que te fazem procurar na rosa dos ventos um ponto cardeal que não existe
viajar por aí às escuras mesmo depois de encandeares a vista numa lâmpada incandescente
com as mãos à frente a tactear o vazio 
de que afinal nunca saíste
e ler as todas as páginas do livro que te entediou nas primeiras linhas
para depois perceberes que a melhor parte era o prefácio.

aqui jaz a realidade
assassinada.

domingo, 23 de julho de 2017

sem título

quando ouço as conversas
já quase ninguém lembra o teu nome
e eu penso

isso não faz sentido

porque como pode alguém esquecer
o nome da única flor que sobrevive ao inverno

nem a extinção da humanidade
nem uma nuvem que envolva o globo
ou a acidificação dos oceanos todos
pode tornar sequer compreensível
que se suma o teu nome de todas as palavras.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

relógio

todos os dias uma lua cheia
todos os dias cento e doze marés
vinte e oito pores-do-sol
cinquenta e seis voltas do ponteiro das horas

dois milhões de batimentos cardíacos
e todas as lagartas do mundo a sair do casulo de asas abertas porque as células imaginais ganharam todas as batalhas travadas.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sem título

este é o tempo dos milhares de naufrágios
e das dezenas de salvamentos.

praia convento

a flat earth society ignora os princípios da física.

por mais voltas que dê, vou dar sempre a ti.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

gente-nada

aguarda que o pó e a pele
abandonem o tempo
para não restar
no que comes,
vestígio das mãos sujas
e quando não chega o tempo
a escola ensina quão moderno
é o mundo da internet
e as televisões apagam a luz
para adormeceres acordado

e das crianças-nada
escravos-nada
homens-nada
mulheres-nada

já ninguém se pergunta
a não ser essa galáxia de gente-nada
que é a maioria.