terça-feira, 6 de dezembro de 2016

quantidade e qualidade

gosto da imagem do copo cheio de água turva pelas argilas em suspensão. em repouso as argilas tendem a pousar, quando a gravidade vence finalmente a agitação e a entropia do sistema baixa ao ponto de a água se separar dos pequenos pedaços de mineral.
é o mesmo copo, é a mesma água, são as mesmas argilas. contudo, pela quantidade de energia que se introduz no sistema, ou que se lhe retira, a alteração é de qualidade. água turva sem depósito no fundo do copo, água límpida e cristalina com as argilas em camadas tranquilas e opacas depositadas.
assim somos nós, um recipiente de lama cuja absorvância depende da agitação.

sábado, 5 de novembro de 2016

sem título

da chuva
sabemos tudo até que
a terra a transpire
da vida
sabemos o que nos deixam as mortes
até que sábios e poetas o desmintam
de nós
nunca poderemos saber coisa alguma
até que o tremor nos tome
a chuva nos respire
e a vida nos ame.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

cordas

nas cordas tecer o tempo
vibrante de uma melodia
de madeira embebida
no verniz das décadas
poder nas mãos de abrir asas
de abrir almas
de encher casas
um vórtice
sem vazio
uma escala plena
de pétalas cadentes
que te cobrem o sorriso quando entras na sala
um vendaval
e tu um salgueiro.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

komorebi

o ar vaporizado
no bosque
as árvores
sobre os fetos rentes
os rasgos de uma estrela incandescente
demasiado próxima
uma cortina
um sopro do nascente
ao ocaso.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

turno da noite

esse café da manhã à noite
a luz do sol só reflectida na lua
e um dia assim de repente 
a enchente
de luz e de gente
vigilante no sono 
ter uma arritmia na vida
uma hora preferida
para morrer
que resta estar disponível 

escreves a vida em código binário
acende apaga
e eu sou o teu turno da noite.