terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

sem título


no inverno
as rochas voltam à placenta do musgo

a respiração vê-se ao longe
e nada reveste o coração.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

sem título

há lá nome de bebida quente mais poético
do que
café sem princípio?

para mim é um, se faz favor. sem princípio nem fim.

sábado, 17 de outubro de 2015

o futuro escrevemos nós

chegou por estes dias
um envelope selado com o lacre dos séculos
chegou de mão em mão porque privatizaram os correios
no destinatário lia-se "presente",
no remetente, "futuro".
no interior, uma carta em branco em que faltava apenas escrever uma palavra.

"comunismo".

terça-feira, 15 de setembro de 2015

sem título

de um naufrágio podem salvar-se as almas
havendo arrependimento
mas salvam-se corpos
havendo terra firme

tu és terra firme.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

teoria

só quem nunca sentiu os teus lábios pode dizer que tudo é relativo.

As armas - tradução de "Des Armes", de Léo Ferré.

As armas, as bonitas, as brilhantes
As que devemos limpar amiúde para o prazer
E que devemos acarinhar como para o prazer
E são, ainda, o que faz sonhar os que vivem em comunhão.

As armas, azuis como a Terra
As que devemos guardar no calor do fundo da alma
Nos olhos, nos corações, nos braços de uma mulher
Que guardamos dentro de nós como se guarda um mistério.

As armas, no segredo dos dias
Sob a erva, no céu e na escrita
As que te farão sonhar muito tarde nas leituras
E que trazem a poesia ao discurso.

As armas, as armas, as armas
E os poetas de serviço ao gatilho
Para acender os últimos cigarros
No fim de um verso francês brilhante como uma lágrima.