terça-feira, 17 de março de 2015

da arte poética

um poema é um conjunto de palavras que requer um trabalho que não tenho, não sei ter, nem ambiciono conseguir ter. a poesia enquanto arte é um fascínio a que felizmente muitos nos podemos entregar porque há quem a ela se entregue como a um cuidado ofício, como a um esforço de uma vida porque um verso perfeito é como uma peça única, com horas de trabalho de concepção, execução, aperfeiçoamento.
o exercício que realizo está muito aquém do esforço dos poetas, tal como estaria aquém do esforço de um escultor eu partir uma rocha casualmente com um escopro.
no entanto é a esse exercício que quero e posso dedicar-me.
não é dizer uma coisa na sua forma perfeita, no seu estado poético. é dizer uma coisa no momento em que ela surge e me toma, mesmo que no estado sólido.

é uma questão mais de tempo que de forma ou conteúdo. se a palavra tem espaço, e tem forma certa, também tem de ter tempo. tempo certo.

esculpir cuidadosamente o verbo, a forma, adaptá-la magistralmente ao conteúdo, é um dom que dificilmente se adquire e, certamente, não é para preguiçosos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

(o-som-da-pequena-flauta-do-amolador)

uma alvorada cortada pelo gume
da coragem afiada
na pedra de amolar corações
e o homem que assobia
e faz chover já não precisa de pedalar mais
na bicicleta parada
porque o tempo acabou
e de ora em diante
só chove.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

silêncio

um fio de céu
escorre nos ponteiros da bomba-relógio
que bate no peito
dos descoraçoados
a cada segundo
do primeiro suspiro
sob o mar de copas
por onde os raios da noite
penetram agudos
os pulmões exaustos
lâminas frias que rombas
rasgam o som que fazemos
quando estamos em silêncio

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

sem título

das raízes da sombra à luz da folha
pudesse tanta dignidade
contagiar outras florestas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

no meu país

aqui no meu país só passa fome quem quer
que migalhas de ricos há espalhadas com fartura
no caixote do lixo da burguesia
que dá pelo nome de i pê ésse ésse
e não falta gente que atire restos aos pobres
como quem manda milho aos pombos
com a diferença que é mais nobre combater a solidão
que a ocupação de tempos livres com gente
para fazer da caridade um penduricalho mais barato que uma sessão de cabeleireiro
ou um passeio da avenida que é da liberdade de alguns
desde que tenham carro comprado após dois mil

no meu país as crianças só passam fome porque querem
ninguém lhes deu ordem de ir nascer na periferia
com tanto condomínio de luxo por aí devidamente licenciado
ou terem ido escolher vir ao mundo só com mãe
e sem pai isto só visto

no meu país os velhos só passam fome porque querem
porque toda a gente sabe que enquanto aqueles corações batem
há uma veia de empreendedorismo a latejar
e um banco pronto prontinho a financiar o arrojo dos septuagenários sem pensão

no meu país
diga-se a bem da verdade
só fica sem emprego quem quer
só vive na solidão quem quer

só morre no mar quem quis viver pescador e ousou ter fome em dia de temporal

só morre de neoplasia maligna quem quis ser mineiro e inspirar urânio 
como quem respira o ar do jardim do hotel de seis estrelas

no meu país só fica à porta do hospital quem quer
pode sempre entrar
nem que seja pela porta da morgue

no meu país só é despedido quem quer porque escolheu precisar de trabalhar
em vez de ter um banco ou pelo menos uma cadeia de hipermercados

no meu país só entrega casa ao banco quem quer
podia sempre comprar a pronto 

aqui neste país
só passa fome quem quer
enquanto diz merda quem pode.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

hegemonia

vieram os lobos
esta é uma noite fria.
depois de a voz se ouvir
como um punho
que podia destruir com a verdade
todas as correntes e cadeias,
não sobreviveu um grito
de testemunho nos manuais escolares.
nas voz dos homens uivam os lobos
que, infelizmente, também são homens.
a pele nua contudo é perene.
irrompe o sol de onde sempre nasce
aquecerá os campos e as cidades
não voltam os lobos a uivar
na voz dos homens.