quinta-feira, 19 de junho de 2014

sem título

a casa abandonou-me, vazia. e os lençóis tremem de frio nas mais quentes noites de verão. frio ou solidão.
já nada habita o interior e apenas o verde das plantas na varanda lembram, ainda que remotamente, alguém. ou a projecção da sua sombra no vidro fosco da porta da sala, porque ao vento, ligeiramente, ondulam e agitam as pequenas folhas.
resta-me um último refúgio, onde ainda respiro, como se de lá pudesse sorver o oxigénio que me leva a ausência, ainda que em doses curtas. é a gaveta esquerda, a mais próxima da minha cabeça e a única onde deixaste o que quer que seja.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

- sem título -

ainda o vento não cantou poemas
e o fim da primavera de pedra já se anuncia
nas formas das nuvens
que,
negras de um escuro aço,
humedecem com gotas de chumbo
os cheiros da terra de onde teimas
não tirar os pés quando levitas.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

da cobardia

os cobardes cheios de palavras
chamar-te-ão à luta que não querem travar.
os verbalistas sem coragem
querer-te-ão na linha da frente
enquanto desertam a rectaguarda.

e enquanto for por ti que clamam,
e contra ti que bramem,
és tu quem, cobarde para eles,
é para nós a esperança e a coragem.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

substrato e substância

trago uma mensagem do fim das lágrimas
e um fôlego de um céu aberto carregado de mãos ao alto
de onde a chuva é fresca e alimenta uma terra que sempre
mas sempre
viveu morrendo de sede,
venho da terra das labaredas da conquista
e sou livre do tempo porque a madrugada não tem cárceres.

na praia com os pés descalços na areia molhada
subo às nuvens pela sombra que projectam no mar.

o meu substrato é a realidade.
a anti-realidade a minha substância.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

pangeia

quando damos as mãos
levanta voo a ave marinha sobre um deserto
e somos contidos por um só planeta
em vários continentes
os sorrisos abrem as asas
e adentro entram por todas as casas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

sem título

vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de amor
porque o amor é uma espécie de distância que é sempre horizonte
e da lonjura a saudade treme as pálpebras e a água salgada dos nossos corpos.
vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de coragem
porque a coragem é um diamante que não quebra,
mas não se encontra à superfície do ser humano,
vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de amizade,
o infinito apesar de escasso,
porque a fibra de que é feito o amigo é o tecido muscular do nosso coração.

e ainda hoje me vêm as lágrimas aos olhos quando ouço falar de poesia
de poesia e das ondas do mar, que são a mesma coisa.