sexta-feira, 2 de maio de 2014

da cobardia

os cobardes cheios de palavras
chamar-te-ão à luta que não querem travar.
os verbalistas sem coragem
querer-te-ão na linha da frente
enquanto desertam a rectaguarda.

e enquanto for por ti que clamam,
e contra ti que bramem,
és tu quem, cobarde para eles,
é para nós a esperança e a coragem.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

substrato e substância

trago uma mensagem do fim das lágrimas
e um fôlego de um céu aberto carregado de mãos ao alto
de onde a chuva é fresca e alimenta uma terra que sempre
mas sempre
viveu morrendo de sede,
venho da terra das labaredas da conquista
e sou livre do tempo porque a madrugada não tem cárceres.

na praia com os pés descalços na areia molhada
subo às nuvens pela sombra que projectam no mar.

o meu substrato é a realidade.
a anti-realidade a minha substância.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

pangeia

quando damos as mãos
levanta voo a ave marinha sobre um deserto
e somos contidos por um só planeta
em vários continentes
os sorrisos abrem as asas
e adentro entram por todas as casas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

sem título

vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de amor
porque o amor é uma espécie de distância que é sempre horizonte
e da lonjura a saudade treme as pálpebras e a água salgada dos nossos corpos.
vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de coragem
porque a coragem é um diamante que não quebra,
mas não se encontra à superfície do ser humano,
vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi falar de amizade,
o infinito apesar de escasso,
porque a fibra de que é feito o amigo é o tecido muscular do nosso coração.

e ainda hoje me vêm as lágrimas aos olhos quando ouço falar de poesia
de poesia e das ondas do mar, que são a mesma coisa.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

sem título

de um cavalo negro 
se espera que voe como fumo.
de um furacão que se extinga em chamas
e labaredas pelo chão.
espero de um coração que deixe de bater 
enquanto o corvo não deixe de voar.
espero de um palácio que se vire do avesso, 
pela porta dos fundos.
do mar que se eleve aos céus trocando de lugar.
espero que dos olhos pendam lágrimas de sangue
que não sejam de santo.
espero que as rosas virem apenas espinhos.
e que a "ave do deserto" nunca parta do "céu".

espero,
 
enfim,

que dos versos colapsem os limites 
do razoável. 
que do universo se extinga o infinito nas nossas mãos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

obrigado

um poeta com as veias abertas
e exposto
em cada sí-la-ba
dos versos lidos. é o que é.
e a gente nem se apercebe que está a ler as entranhas
de outro, de uma pessoa que, sabe-se lá porquê,
talvez por não conseguir de outra forma,
espetou a alma numa folha de papel.